Cataclisma? Aquecimento global? Fim do mundo? Poucos sobreviventes que na sua maioria se tansformam em sádicos assassinos e até em canibais? Tudo isso o espectador já viu antes desde “Mad Max” até o recente “O Livro de Eli“, rendendo assim de boas a ótimas obras de ação. Mas não… o público ainda não viu tudo. Talvez nunca o drama de sobreviventes de uma catástrofe mundial tenha sido retratado com tanto realismo e honestidade quanto em “A Estrada”.
O cenário é apocalíptico como conhecemos, mas ao contrário das outras produções, aqui não há a mínima esperança. O mundo definha aos poucos assim como seus poucos sobreviventes. Não há mais comida e as pessoas morrem de inanição ou se suicidam para que a passagem seja mais rápida. Viggo Mortensen (“Appaloosa – Uma Cidade Sem Lei“) luta contra esse horrendo destino junto a seu filho percorrendo uma estrada até a costa, vagando em busca de comida, enquanto deve evitar ao máximo gangues de ladrões e canibais.
A dupla devora as cenas de forma visceral, inclusive o novato Kodi Smit-McPhee. A grande sacada é que eles são pessoas extremamente comuns em busca de sobrevivência. Pode-se dizer até que são frágeis e o próprio medo da morte é a força motriz para vencer os obstáculos. A química entre os dois atores é perfeita e nunca acreditou-se numa dupla de pai e filho como agora. A narração em off, cansada do protagonista também diz muito sobre o relacionamento dos dois. A ponta de luxo de Charlize Theron, de “Hancock” e linda até no fim do mundo é de fundamental importância para que se estabeleça a dinâmica entre os personagens.
E o que dizer da magreza esquelética de Mortensen? Esse é apenas um dos milhões de cuidados que o diretor John Hillcoat (“A Proposta“) teve na realização da obra. A direção de fotografia chega a impressionar e está nas mãos de Javier Aguirresarobe que até já trabalhou com Woody Allen em “Vicky Cristina Barcelona“, sem deixar de citar o excelente design de produção. Alguns enquadramenos são perfeitos como a gota caindo no espelho na qual reflete o rosto do nosso herói, ou a parte quando ele descobre um piano, mas a câmera desce lentamente até que entendamos o que é.
Continuando nos aspectos técnicos, chega a ser emocionante a combinação da atuação com a trilha sonora dos já parceiros de Hillcoat, Warren Ellis e o cantor Nick Cave, desde “A Proposta“. E fecha-se com efeitos especiais discretos, mas de extrema eficiência.
Baseado no livro de Cormac McCarthy, “A Estrada” talvez seja a única produção do gênero que tenha descartado a ação para focar num intenso drama, colocando pessoas no limiar do desespero real onde a platéia deve experimentar todas as agruras do que se passa na tela. Mesmo com um desfecho que pudesse ser melhor trabalhado, é um filme notável e recomendadíssimo. Com o aviso: é drama, mas não ação.
Ficha Técnica
Elenco:
Viggo Mortensen
Kodi Smit-McPhee
Robert Duvall
Guy Pearce
Charlize Theron
Michael K. Williams
Direção:
John Hillcoat
Produção:
Paula Mae Schwartz
Steve Schwartz
Nick Wechsler
Fotografia:
Javier Aguirresarobe
Trilha Sonora:
Nick Cave
Warren Ellis





cara, sempre fui fã de filmes apocalipticos, mas ultimamente parecia que já tinha visto de tudo sobre esse estilo, assim como já acontece com os filmes de zumbis, mas nao, ” a estrada” veio pra ser o diferencial.
o filme é perfeito do inicio ao fim. nao acho que precise ficar estendendo finais, na verdade, nao acho que tenha algo mais para estender, simplemente acaba.
As atuaçoes sao perfeitas, e emocionam sem precisar de muitas falas. os gestos, os olhares, o cansaço que nos é passado é algo tao forte que faz com que vc mantenha por muito tempo ainda depois do filme aquele nó na garganta.
até os atores secundarios como o ladrao na praia…cara…acho que nunca senti tanta pena de alguém como senti desse cara.
e onde acharam aquele muleki?! mermao, esse merecia um oscar!! a cena da despedida…q fooooda!!
destaque para “a chama”
=)
Ótimo filme e ótima crítica!
Diferente do que já se tornou um padrão para mim, assisti ao filme primeiro e depois vi a sua crítica Aldo (apenas porque o filme foi indicação de um amigo! se bem que havia esquecido que ele havia me indicado Os Homens que Encaravam Cabras).
E ao começar a ler o comentário do Saullo, achei até que era um comentário meu rsrs…
Digo isso pois sou um grande fã de filmes em que algum problema aconteceu e tudo esta perdido…
Acredito que o grande diferencial seja a beleza e profundidade com que o drama é mostrado.
Ótimo filme!
Angustiante! A definição não é minha, e sim de minha esposa. E concordo em gênero, número e grau. Chega quase ao estado sólido a falta de esperança do mundo ao redor. Charlize, que deve ter até a alma bonita, mostra que justamente esta esperança é algo sem sentido, e não está em seus planos “sobreviver”, para ela viver com medo, fome, isolada, com a família definhando bem diante de seus olhos, não vale a pena. Vigo e Kodi são o contraponto, o pai se agarra ao filho como o único fio de esperança que lhe resta, e este é quem se esforça para manter o pai são e “bom”, demonstrando assim, e ratificando com suas próprias palavras, que é justamente o menino “que tem que se preocupar com tudo”. O filme é tão rico que um comentário mais longo se tornaria chato, vale muito a pena, e de intenso medo quando se pergunta, e se fosse com você?