As Crônicas de Nárnia – A Viagem do Peregrino da Alvorada (“The Chronicles of Narnia: The Voyage of the Dawn Treader”, EUA, 2010) ***NOS CINEMAS***

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Porque a transposição para a telona da obra de C.S. Lewis não teve nem um décimo da qualidade e sucesso de outras adaptações como “Harry Potter” e “O Senhor dos Anéis“? Por dois grandes motivos que se prolongam desde o primeiro episódio “O Leão, A Feiticeira e o Guarda-Roupa”, isto é, não aprenderam com os fracassos passados. Antes de transcorrer sobre os erros, quero deixar claro que estamos falando dos filmes e não dos livros, os quais não li.

O primeiro grande erro é a completa falta de contextualização do mundo de Nárnia. Na Terra Média e no universo de Hogwarts, por mais fantasia que exista, todos os seus elementos parecem muito bem amarrados, ou melhor, coesos, de tal forma que é facilmente crível que faz parte das respectivas realidades. O próprio Tolkien, autor de “Senhor dos Anéis“, por exemplo, conseguiu criar um mundo com um mapa geográfico consistente e até linguagens próprias, fazendo da Terra Média algo muito próximo do real. Já em Nárnia todos os elementos que compõem seu mundo são jogados aleatoriamente. A bagunça é tanta que em determinado momento um personagem tenta falar com uma ave e é repreendido por um touro falante que, rindo, esclarece que obviamente aves não falam. Isso porque um dos personagens principais é um rato falante e ainda tem o Leão Aslam que parece ser cada vez mais uma incógnita (quem é o seu deus agora?).

A outra mancada que o roteiro comete é que nos três episódios não há o mínimo de senso de perigo. Não importam as batalhas ou aventuras que nossos heróis passem, tudo parece ser brincadeira e praticamente não existe tensão. Para se ter uma idéia, quando um personagem é transformado numa criatura horrenda, a coisa é levada no bom humor.

Em particular, a história desta terceira parte é sem pé nem cabeça. As crianças inglesas voltam a Nárnia para quebrar um feitiço que vem de uma ilha do mal. Se essa sinopse pareceu ridícula, o filme é mais ainda. Faz constantes referências a clássicos, desde “Goonies” até a antológica cena do primeiro “Caça-Fantasmas” onde a grande ameaça é formada através do pensamento do Dr. Stantz (Dan Aykroyd) – na verdade foi o filme que copiou o livro.

Como se não bastasse, o roteiro tem erros grotescos, como no último ato, a cena em que o garoto Eustáquio está numa determinada ilha e cinco minutos depois aparece na água ao lado do navio a milhas de onde ele estava antes. Será que acharam que o espectador não ia notar? O único destaque vai para o ator mirim Will Poulter (“O Filho do Rambo“) cuja ótima caracterização com certeza é o que o filme tem de melhor, mesmo que o personagem dele seja o mais antippatico. E ele ainda exerce o papel do alter-ego do público já que não consegue acreditar no que vê em Nárnia, visto que é sua primeira incursão.

Alguns segundos espalhados pelo filme mostram certa profundidade que talvez haja em abundância no livro, entretanto o resto da história comandada por Michael Apted (“Jornada Pela Liberdade“) se encarrega de jogar qualquer resquício de inteligência fora, deixando “As Crônicas de Nárnia – A Viagem do Peregrino da Alvorada” como uma das frustrações mais caras de todos os tempos. A única decisão acertada foi que os Estúdios Disney não devem mais produzir uma nova continuação. Amém.

[rating:1.5]


Ficha Técnica

Elenco:
Ben Barnes
Georgie Henley
Skandar Keynes
Will Poulter
Liam Neeson
Simon Pegg
Tilda Swinton
Gary Sweet
Terry Norris
Bruce Spence

Direção:
Michael Apted

Produção:
Andrew Adamson
Mark Johnson
Philip Steuer

Fotografia:
Dante Spinotti

Trilha Sonora:
David Arnold

 

1 Comment

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  • Narínio
    on

    Sem falar erros de coerência. No 2° filme passaram-se milhares de anos, mas nesta continuação não se passou nem 5 anos…

    Não vi explicando neste filme, ou tem?

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