Destacamento Blood (“Da 5 Bloods”)

O consagrado diretor Spike Lee que fez o sensacional “Infiltrado na Klan” volta fazendo um ótimo filme… porém meio esquisito. Ele pega claras referências de outros cineastas como Clint Eastwod e Quentin Tarantino para fazer um amalgama de histórias que mais ou menos orbitam sobre seu ativismo clássico contra o racismo, embarcando também numa crítica contra a Guerra do Vietnã.

Quatro veteranos negros dessa guerra voltam ao Vietnã para tentar achar os restos do grande amigo e comandante que morreu em ação (nosso eterno “Pantera Negra” Chadwick Boseman numa de suas últimas participações). Além disso querem pegar pra si um montante de ouro que carregavam na época que fora perdido, mas que muita gente está de olhos. Nesse meio tempo discutem sobre racismo, guerra e amizade.

Se a sinopse pareceu meio fragmentada, o filme também o é. Lee consegue enxertar com interessante abordagem visual ficção e fatos históricos, e ainda vai costurando essas tramas dispersas para que tenham maior unidade. A atuação principalmente do veterano Delroy Lindo (“O Chamado do Mal”) encanta por parece encarnar todos os distúrbios e assombros que uma guerra pode deixar.

Contudo, as mais de duas horas e meia de projeção despertam esses pequenos incômodos, como se houvesse uma história que se sobrepôs a outra (e isso é verdade, veja nas curiosidades mais abaixo), onde tanto o ritmo e abordagem se aproximam e se afastam numa trajetória elíptica, fazendo com que haja várias oscilações de trama ao longo do caminho. Tudo pode fazer parte da genialidade de Spike Lee, pois ao mesmo tempo que evoca Clint Eastwood na sua condução de contador de histórias reais, encarna de vez em quando o Tarantino com banhos de sangue exacerbados que geram ótimas cenas de ação, mesmo que um pouco caricaturais como visto por exemplo em “Django Livre”.

Um dos exemplos desse pensamento de vanguarda é que nos flashbacks os personagens continuam velhos e apenas Norm (o que morreu) é jovem. Isso porque não é um flashback, mas sim a lembrança coletiva do grupo onde eles se imaginam com a idade atual e lembram do amigo morto do jeito que ele era. Além de poético, ainda ajuda o espectador a identificar facilmente os personagens nas duas épocas.

Destacamento Blood” é pura arte pop ativista com abordagem talvez à frente de seu tempo e que talvez passe por incompreendida. Não é o melhor de Spike Lee, tampouco merece ser desprezado.

Curiosidades:

– O nome dos cinco integrantes dos “Bloods” são exatamente os nomes dos integrantes da banda “The Temptations” (banda negra das décadas de 60 e 70 de sucessos como “My Girl” ou “Treat me like a lady”). O Blood que morreu, Norm, era o produtor de todas as músicas do grupo.
– O roteiro original era sobre veteranos brancos irem atrás do ouro e de seu parceiro morto na guerra. Depois de ter passado pela mão de muitos cineastas, chegou na mão de Spike Lee que reescreveu o roteiro, acrescentando a questão do ativismo social e crítica à guerra.
– Durante as filmagens desse filme, Chadwick Boseman se dividia entre a produção, as filmagens de “A Voz Suprema do Blues” e seu tratamento de câncer no cólon de onde veio a falecer pouco depois.
– Há uma foto do ator Delroy Lindo jovem numa cena. Ela foi tirada em 1979 para a comédia “E a Festa Acabou” onde coincidentemente ele também interpretava um militar.
– Há vários nomes de estabelecimentos e partes da trilha sonora que são referências vindas do clássico “Apocalipse Now” de 1979.
– A linha de diálogo “Loucura! Loucura!” falada no final é uma homenagem ao mesmo diálogo no final de “A Ponte do Rio Kwai” de 1957.
Das 9 músicas tocadas ou cantadas durante o filme, 6 delas são do álbum de Marvin Gaye “What’s going on” de 1971.

Ficha Técnica

Elenco:
Delroy Lindo
Jonathan Majors
Clarke Peters
Norm Lewis
Isiah Whitlock Jr.
Mélanie Thierry
Paul Walter Hauser
Jean Reno
Chadwick Boseman
Jasper Pääkkönen
Johnny Nguyen
Y. Lan
Lam Nguyen
Sandy Huong Pham
Veronica Ngo
Anh Tuan Nguyen

Direção:
Spike Lee

Produção:
Jon Kilik
Spike Lee
Beatriz Levin
Lloyd Levin

Fotografia:
Newton Thomas Sigel

Trilha Sonora:
Terence Blanchard

 

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