Dunkirk

A Batalha de Dunquerque (sim, é assim que se escreve Dunkirk em português) foi uma das grandes derrotas da aliança franco-britânica que consolidou a tomada da França por Hitler. Entretanto, o ato de mais de 300 mil soldados ingleses e franceses terem escapado com vida, pelo mar com a ajuda de dúzias de navegações civis que atravessaram o Canal da Mancha (batizada de Operação Dínamo) deu um novo fôlego à Segunda Guerra Mundial, facilitando as negociações entre Churchill e os EUA que logo viriam a entrar na guerra após o incidente em Pearl Harbor.

O problema é que por ter uma ação muito mais voltada para a fuga do que para a luta, fazer um filme que capturasse com espírito comercial essa sequência de eventos seria um desafio. O mestre Christopher Nolan aceitou esse desafio, fazendo aquilo em que ele se tornou expert: brincando com o tempo, artifício que, de diferentes formas, ele usou de forma mais contundente em seu primeiro sucesso “Amnésia”, que depois virou um ótimo carnaval em “A Origem” e finalmente em sua última empreitada “Interestelar”. Ele dividiu o filme em três linhas narrativas com tempos diferentes:

– O Mole: se passa no intervalo de uma semana onde os soldados na praia tentam desesperadamente entrar em alguma embarcação para voltar para a Inglaterra, enquanto temem um ataque pelo ar dos alemães. Encabeçada pelos desconhecidos atores Fionn Whitehead e Harry Styles, ex cantor do grupo One Direction. Inclusive a decisão de se inspirar em filmes mudos para essa sequencia, principalmente para o personagem de Whitehead (Tommy) funcionou mais como conceito do que na prática.
– O Mar: se passa no intervalo de um dia, quando os barcos civis navegam por cerca de 15 horas para resgatar soldados na praia a pedido de Churchill. É protagonizada pelo ganhador do Oscar Mark Rylance (“O Bom Gigante Amigo”).
– O Ar: no intervalo de uma hora, o aviador Farrier (Tom Hardy que volta a trabalhar com Nolan depois de ser Bane em “Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge”) deve abater o máximo de aviões alemães para que estes não causem danos e mortes aos milhares de soldados esperando o socorro que vem pelo mar.

As três linhas narrativas vão se cruzar num momento crítico no terceiro ato e até lá o espectador vai ver alguns eventos duas ou três vezes por ângulos diferentes, o que não deixa de ser uma sacada brilhante, mas ao mesmo tempo pode facilmente confundir os mais desavisados. Como um bom condutor de cenas, Nolan também trabalhou bastante o design de som para que o som dos confrontos, provocasse surpresa e uma agonia e tensão crescentes, o que também tem êxito como no momento da aproximação dos caças inimigos. Inclusive o próprio compositor Hans Zimmer (“Estrelas Além do Tempo”) usa o barulho de um tic tac de relógio que tem a função de potencializar a tensão e lembrar ao espectador os diferentes timings para cada linha narrativa. Inclusive outra decisão acertada foi de colocar o inimigo quase como uma entidade invisível, pois com exceção dos aviões, vemos tiros e torpedos sem nunca vislumbrar sua origem.

E daí voltamos ao problema: se os aspectos técnicos e a abordagem proposta parecem impecáveis, o roteiro e a sua condução (com a mesma abordagem) produzem uma série de belas sequencias, algumas inclusive que despertam a palpável tensão já citada, mas a junção delas não consegue produzir um filme consistente ou até mesmo um ritmo que seja aderente a essa abordagem, ficando uma narrativa alquebrada pela própria proposta e passando uma sensação de incompletude que incomoda principalmente depois da metade da projeção. Até alguns fatos reais parecem ter sido colocados muito mais para simplesmente constarem num checklist do que aconteceu do que ter um propósito dramático que agregue valor ao todo (um acidente besta num barco, por exemplo).

Dunkirk” se torna um filme necessário, relevante e artisticamente irrepreensível nas mãos do diretor Chris Nolan, mas ao mesmo tempo produz uma história frágil, entrecortada que nunca se deixa ser absorvida onde a soma das partes parece ser menor que o todo.

Curiosidades:

– Uma das coisas que os soldados ingleses reclamaram, no filme e na realidade, foi a falta de força aérea para defende-los dos ataques de aviões alemães. Isso também provavelmente incomodou os espectadores. O que poucos sabem é que essa batalha aconteceu com uma grande frota de caças ingleses dentro da França e eles vinham por uma rota que não era visível a quem estava na praia. Por isso que se via apenas alguns aviões do inimigo: eram aqueles que escapava da grande defensiva aérea que poucos viram e que acabaram sendo combatido pelos três aviões aliados conduzidos pelo personagem de Tom Hardy.
– O tic tac do relógio que permeia todo o filme vem de um relógio de bolso do próprio diretor. O compositor Hans Zimmer escutou no bolso de Nolan e pediu emprestado para fazer a trilha.
– O protagonista da sequência O Mar, o Sr. Dawson, interpretado por Mark Rylance foi inspirado no Sr. Lightoller, 2º Almirante do Titanic que escapou com vida e, tal qual o personagem, foi ele mesmo com seu barco resgatar os soldados em Dunquerque.
– Reparem que a logomarca do título é dividida em azul claro, azul marinho e laranja. É a referência dos três segmentos: ar (azul claro), mar (azul marinho) e praia (laranja, denotando a areia).
– O diretor recebeu o melhor salário e participação nos lucros que qualquer outro diretor, equiparando-se apenas a Peter Jackson na trilogia “Senhor dos Anéis” (U$ 20 milhões + 20% de participação nos lucros).
– Foi o filme com a maior quantidade de embarcações postas no mar de todos os tempos (mais de 50).
– O homem cego no fim do filme é o tio do diretor, John Nolan. Ele costuma aparecer em todos os filmes do diretor.
– Para quem sentiu falta de Michael Caine, ator e amigo do diretor que aparece em praticamente todos os seus filmes, saiba que a voz do rádio que fala com os aviadores no início é dele.
– Interessante “rima” que Nolan fez com o personagem de Tom Hardy, visto que aqui ele passa a maior parte de seu tempo com a máscara de aviador e como o Bane, arqui-inimigo de Batman, ele também usa uma máscara similar. Sem contar que em “Mad Max”, ele passa parte do tempo com uma máscara também.

Ficha Técnica

Elenco:
Fionn Whitehead
Harry Styles
Mark Rylance
Tom Hardy
Kenneth Branagh
James D’Arcy
Damien Bonnard
Aneurin Barnard
Barry Keoghan
Tom Glynn-Carney
Jack Lowden
Bobby Lockwood
Will Attenborough
Tom Nolan
Matthew Marsh
Cillian Murphy
Adam Long

Direção:
Christopher Nolan

Produção:
Christopher Nolan
Emma Thomas

Fotografia:
Hoyte Van Hoytema

Trilha Sonora:
Hans Zimmer

 

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