Homem-Aranha: De Volta ao Lar (“Spider-Man: Homecoming”)

Depois do acordo entre estúdios para colocar o cabeça de teia junto com os vingadores – a pendenga entre Sony, Columbia Pictures e Marvel Studios – tudo o que fora feito antes foi esquecido em prol desse novo arco de história. Nem é preciso dizer a falta que Tobey Mcguire faz como o super-herói, mas temos que convir que, tal qual a maioria dos produtos Marvel para o cinema, “De Volta ao Lar” foi muito bem pensado para se encaixar com toda a cronologia do universo Marvel e foi executado quase que de forma impecável pelo diretor Jon Watts (“A Viatura”).

Para o contexto e propósito do filme como parte do universo Marvel, Tom Holland (“Z: A Cidade Perdida”) é o cara certo na hora certa: mais novo que seus antecessores, inclusive com a tia May nova e gata (Marisa Tomei de “A Grande Aposta”), o herói tem um interessante arco dramático onde para alguém de 15 anos é muito difícil escolher entre salvar o dia e viver as delícias e percalços da adolescência. A cena em que ele vê seu interesse amoroso na piscina ou até mesmo a grande reviravolta do filme no terceiro ato – onde não dá pra parar de pensar que se ele fosse o Homem-Aranha, seria só alegria – ilustra perfeitamente a situação.

O contexto é que logo após o primeiro “Os Vingadores”, o Sr. Toomes (Michael Keaton de “Fome de Poder”) perde todo seu dinheiro que investiu para recolher os detritos extraterrestres de Nova York por causa de uma decisão política. Revoltado com o sistema, com o pouco de material extraterrestre que recolheu, ele e seu bando constroem armas para traficar e um uniforme com asas que o faz virar o vilão Abutre. Oito anos depois, seus negócios começam a se expandir e chamar atenção do então novato Homem-Aranha.

Watts tomou a acertadíssima decisão de não mostrar mais a origem do herói, explorando melhor o tempo de projeção para desenvolver seus relacionamentos que, diga-se de passagem, ganha pontos pela diversidade: seu melhor amigo tem descendência filipina (por sinal um excelente alívio cômico) e seu interesse amoroso (a delícia estreante Laura Harrier com suas bocas carnudas) é afroamericana.

Sendo cada vez mais ousada na forma narrativa e estética de seus filmes, a Marvel se inspirou nas comédias de John Hughes para contar o desenvolvimento do desabrochar da adolescência do personagem. Pra quem não sabe, o saudoso Hughes dirigiu, entre outras pérolas “A Garota de Rosa Shocking”, “Clube dos Cinco” e “Curtindo a Vida Adoidado”. A influência é tanta que a cena da detenção emula “Clube dos Cinco” e uma das cenas de perseguição não só é o clone de “Curtindo a Vida Adoidado” como aparece rapidamente o filme numa das televisões. É um golaço o fato da Marvel não apenas se autorreferenciar como também homenagear o cinema em geral, até mesmo trazendo o fenômeno “Star Wars” para algumas de suas cenas ou ainda atiçando a briga entre Marvel e DC já que o antagonista de Peter na escola tem o apelido de Flash.

Falando em homenagem, destaque para o maestro Michael Giacchino (“Star Wars: Rogue One”) que não só faz um belo trabalho ao compor uma trilha original, épica e aderente ao universo dos super-heróis, como também surpreende na abertura com o tema original e orquestrado da série de TV dos anos 70.

As cenas de ação dão conta do recado com efeitos especiais cada vez mais caprichados que conseguem fazer os personagens se moverem praticamente como os atores, fazendo o espectador quase não perceberem a diferença. E se a presença do Tony Stark e seu fiel ajudante Happy Hogan – que se recuperou bem da explosão em “O Homem de Ferro 3” – é uma atração à parte, a Marvel subverte suas próprias tradições na segunda cena após os créditos (sim, depois de todos os créditos finais), com uma engraçadíssima participação.

Homem Aranha: De Volta ao Lar” conseguiu não ser mais do mesmo, mostra um herói carismático, falho, em desenvolvimento e totalmente aderente à narrativa, com cenas de ação e referências pra deixar a todos de queixo caído. É o nivelamento de qualidade Marvel sempre lá em cima.

Curiosidades:
– Michael Keaton interpreta o Abutre, um pássaro, que remete a um de seus papéis anteriores, o protagonista em “Birdman”, o qual é inspirado em seu grande sucesso como “Batman” de Tim Burton em 1989.
– A voz da assistente virtual do traje do Homem-Aranha é de Jennifer Connelly (“Pastoral Americana”) que por sinal é esposa de Paul Bettany que fez a voz do computador Jarvis e hoje é o Visão.
– O personagem que é o traficante da balsa para o qual o Abutre vai fazer uma transação de armas é Mac Gargan que nos quadrinhos vai se transformar no vilão Escorpião, portanto pode ser uma dica do que vem por aí.
– O diretor da escola de Peter Parker é o ator , o ator Kenneth Choi, também interpretou o comandante Jim Morita em “Capitão América: O Primeiro Vingador”. Na sala da diretoria tem fotos de soldados combatendo o que sugere que o diretor pode ser o neto de Jim Morita.
– Há uma cena em que Happy mostra um anel que guarda desde 2008. Esse é o ano de lançamento de “O Homem de Ferro”, filme que deu o início ao Universo Marvel.
– A menina do noticiário da TV da escola se chama Betty Branch que nos quadrinhos será a futura secretária de ninguém menos que o editor do jornal J.J. Jameson.
– Na parede da escola de Peter há fotos homenageando o pai de Tony Stark, Howard e Bruce Banner.
– Quase no fim do filme a personagem mais cínica do grupo de estudantes, Michelle (interpretada pela cantora e atriz Zendaya) diz que os amigos a chamam de MJ, que é uma abreviação de Mary Jane, interesse romântico de Peter nos quadrinhos e pode indicar qual o rumo essa improvável amizade vai tomar.
O garotinho que aparece com a máscara do Homem de Ferro em “Homem de Ferro 3” era Peter Parker! Reveja a cena:

Ficha Técnica

Elenco:
Tom Holland
Michael Keaton
Robert Downey Jr.
Marisa Tomei
Jon Favreau
Gwyneth Paltrow
Zendaya
Donald Glover
Jacob Batalon
Laura Harrier
Tony Revolori
Bokeem Woodbine
Tyne Daly
Abraham Attah
Hannibal Buress
Kenneth Choi
Selenis Leyva
Angourie Rice
Martin Starr
Garcelle Beauvais
Michael Chernus
Michael Mando
Logan Marshall-Green
Jennifer Connelly
Gary Weeks
Christopher Berry
Jorge Lendeborg Jr.
Tunde Adebimpe
Tiffany Espensen
Isabella Amara
Michael Barbieri
J.J. Totah
Chris Evans

Direção:
Jon Watts

Produção:
Kevin Feige
Amy Pascal

Fotografia:
Salvatore Totino

Trilha Sonora:
Michael Giacchino

 

1 Comment

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  • Daniel Bzrra
    on

    Olá Aldo, cara assiste esse filme com uma galera de mais de 20 pessoas sendo umas 10 crianças, e me perguntei por diversas vezes o que eu estava fazendo ali?
    Será que estou ficando velho e impaciente? Filme chato, bobo e simplesmente infantil. Si pelo menos eu já soubesse que era infantil ou infanto juvenil talvez eu gostasse mais.
    Pois fiquei esperando, esperando, esperando e nada de interessante aconteceu durante todo o filme, até a revelação final ficou estupida. Como que uma pessoa estuda na escola na mesma sala e não sabe quem são os pais? Sei que provavelmente lá nos EUA isso possa até convencer mais comigo que sou Brasileiro não convenceu. Eu prefiro assistir animação infantil que pelo menos tentam passar uma mensagem bacana aos pais e as crianças a assistir uma porcaria dessa. O filme é um conjunto de piadas e efeitos especiais e só. É por essas e outras que deixei de acompanhar os filmes da Marvel .

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