Máquinas Mortais (“Mortal Engines”)

Um dos grandes desafios dos produtores em adaptar uma série infanto-juvenil é a eterna dúvida do sucesso. Adaptar cada livro como um filme pode trazer uma imensa receita se der certo (vide “Harry Potter” ou “Senhor dos Anéis”) ou ser um fracasso retumbante (vide “Os Instrumentos Mortais” ou “A Bússola de Ouro”). Condensá-lo num só filme minimiza os riscos, mas pode castrar a adaptação de sua essência e a emenda ser pior que o soneto.

Máquinas Mortais”, baseado na série de Philip Reeve, escolheu a segunda opção e ficou num intermediário entre o sucesso e o fracasso. Num futuro distante e distópico uma guerra acabou com as cidades do mundo e quem sobrou, construiu imensas máquinas que se movem e abrigam milhares de pessoas. Para sobreviverem essas máquinas caçam umas as outras em busca de mais recursos. A maior delas é Londres, capitaneada pelo malvadão Valentine (Hugo Weaving de “A Vingança Está na Moda”) que tem planos sombrios para dominar o que sobrou. Ele só pode ser detido por Hester (Hera Hilmar de “Amor em Tempos de Guerra”), em busca de vingança pela morte da mãe.

O novo empreendimento de Peter Jackson – sim, o diretor de “O Hobbit” – que orquestrou todo o filme, desde a compra dos direitos do livro até o coach do diretor iniciante Christian Rivers, consegue estabelecer um interessante universo que facilmente pode ser expandido (e é na série de livros) e tem tramas paralelas relevantes e que poderiam tornar a narrativa mais rica.

O “poderia” fica por conta da necessidade de se condensar a série num único filme: a trama de Shrike, o androide que quer matar Hester é bela, está presente em grande parte da história, mas ainda assim é mal contada, deixando pouco espaço para a criação de uma afinidade com o espectador. A própria formação da força “Anti-tração”, ou os rebeldes tais quais em “Star Wars”, comandados por Anna Fang, interpretada pela andrógina cantora Jihae e caracterizada como uma Trinity de “Matrix” em vermelho, daria por si só, um filme à parte (e quem sabe não dê). Ou finalmente a subaproveitada trama da filha de Valentine (a linda novata Leila George) que gasta um tempo desnecessário na produção e não agrega em praticamente nada no resultado.

Os efeitos especiais são belíssimos e dificilmente passam a impressão que são digitais, além de ter uma ótima interação com o elenco. Já o casting deixa a desejar, principalmente no inexpressivo elenco de apoio e até no alívio cômico e par romântico de Hester, Tom (Robert Sheehan de “Tempestade: Planeta em Fúria”) numa caracterização chata e equivocada.

Máquinas Mortais” talvez não tenha porte para ter sido uma série, mas tinha riqueza suficiente para não ser só um único filme. Na escolha do que fica e do que sai, coisas boas ficaram para trás e entrou gordura desnecessária. Longe de ruim, mas vai dividir opiniões.

Curiosidades:

– No livro, na parte dos animais queridos da América se encontram as estátuas do Mickey e Pluto. Como o filme foi feito pela Universal ao invés da Disney, os realizadores substituíram pelos Minions.
– No livro, a protagonista Hester é descrita sem parte do nariz e sem um olho, proveniente da sua luta quando criança com Valentine. Para amenizar, no filme ela apenas tem uma cicatriz no rosto.
– Como foi Peter Jackson que orquestrou o filme, os sets de filmagens foram na Nova Zelândia nos mesmos lugares de “Senhor dos Anéis” e “O Hobbit”.
– O título “Máquinas Mortais” vem de um diálogo na peça “Othelo” de William Shakespeare, onde o protagonista usa essa expressão.
– Valentine usa a expressão “Dawrinismo Municipal”, o que significa uma espécie de seleção natural de espécies aplicada à cidades, já que elas se movimentam e se “alimentam” de outras cidades para continuar a produzir energia. Dessa forma, como Darwin propõe, as mais adaptáveis prevalecem.

Ficha Técnica

Elenco:
Hera Hilmar
Robert Sheehan
Hugo Weaving
Jihae
Ronan Raftery
Leila George
Patrick Malahide
Stephen Lang
Colin Salmon
Mark Mitchinson
Regé-Jean Page
Menik Gooneratne
Frankie Adams
Leifur Sigurdarson

Direção:
Christian Rivers

Produção:
Deborah Forte
Peter Jackson
Amanda Walker
Fran Walsh
Zane Weiner

Fotografia:
Simon Raby

Trilha Sonora:
Junkie XL

 

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