Noé (“Noah”)

Antes de qualquer coisa é importante traçarmos uma linha aqui: vamos considerar “Noé” não um filme baseado nos escritos bíblicos, mas uma aventura dramática levemente inspirada neles. Primeiro porque realmente não foi: houve grande influência de uma graphic novel francesa sobre o mesmo tema. Segundo porque o diretor Darren Aronofsky (“Cisne Negro”) e seus roteiristas tomaram tantas licenças poéticas que desvirtua completamente o que está escrito, sendo apenas uma vaga interpretação bíblica, alguns momentos mais fiel e em outros passando longe dos versículos.

E isso é ruim? Não. Apenas situa o filme, como tantos outros, numa realidade alternativa. Russell Crowe de “Um Conto do Destino” é Noé, descendente direto de Adão, que recebe uma mensagem divina dizendo que Deus (lá chamando sempre de o Criador) vai expurgar os pecados do mundo inundando-o e matando todos os seres humanos. Caberia a Noé, construir uma arca que pudesse abrigar pares de todas as espécies animais para que no fim, pudessem procriar e multiplicar-se, construindo um novo paraíso na Terra.

Então ele conta com a ajuda de sua família e de anjos caídos em forma de criaturas de pedra para esse empreendimento, enquanto deve enfrentar a fúria de homens de outras tribos, capitaneadas pelo malvado Tubal-Cain (Ray Winstone de “O Último Guarda Costas”).

Pode se dizer que o filme se divide em três conflitos básicos:

a) A construção da arca em si e as dificuldades técnicas envolvidas, o que permeia praticamente todo o primeiro ato. E onde vemos talvez os mais belos efeitos especiais. Só para se ter uma idéia, a produção não contou com nenhum animal. Tudo foi feito digitalmente.

b) O embate entre Noé e sua família contra as tribos de Tubal-Cain, o que vai gerar não só uma interessante cena de batalha, como também plantar a semente do próximo conflito.

c) A própria escolha de Noé, ou melhor, a sua interpretação da mensagem divina, onde, segundo o próprio, todos os seres humanos (mesmo os inocentes) deveriam morrer para se obter um paraíso sem pecado.

Este último gera os melhores e piores frutos do filme. Os melhores porque mostra uma visão muito mais interessante do protagonista, a qual Crowe se entrega de maneira primorosa: ele acaba virando um obsessivo com sua interpretação da mensagem, tornando-o quase um psicopata em querer que todos morram – sua esposa e filhos inclusive – e mesmo após ter abandonado pessoas claramente inocentes, causando repulsa em sua família (detalhe: na Bílbia não é assim, pois Deus permite que ele e sua família sejam salvas).

Isso dá espaço para que o resto do elenco coadjuvante dê ótimas contribuições como Jenifer Connelly (que já contracenou com Crowe em “Um Conto do Destino”) sendo sua esposa, Emma Watson (“Bling Ring: A Gangue de Hollywood”) como sua filha de criação e talvez o segundo personagem mais complexo da trama o apenas correto Logan Lerman (que já atuou com Watson em “As Vantagens de Ser Invisível”).

Já os piores frutos vêm da indecisão do diretor entre seguir mais à risca os escritos bíblicos ou se deixar ser levado por um roteiro com conflitos autênticos. Eles escolheu um intermédio que prejudicou em muito a consistência do roteiro, principalmente no último ato, onde Crowe tem que se virar pra expor uma mudança de personalidade tão grande, frente à sua dita missão, além da repentina falta de bom senso em suas interpretações das mensagens divinas (a chuva ter parado significa…?). Uma vez por esse caminho, Darren Aronofsky acaba optando pela saída mais fácil que invalida qualquer interpretação possível e talvez desagrade tanto aqueles mais religiosos, quanto os que apenas procuram diversão.

“Noé” é um bom filme que conseguiu se achar, apenas para se perder logo em seu final. Nesse dilúvio, ele literalmente nadou tanto pra morrer na praia.

Ficha Técnica

Elenco:
Russell Crowe
Jennifer Connelly
Ray Winstone
Anthony Hopkins
Emma Watson
Logan Lerman
Douglas Booth
Nick Nolte
Mark Margolis
Kevin Durand
Leo McHugh Carroll
Marton Csokas
Finn Wittrock
Madison Davenport

Direção:
Darren Aronofsky

Produção:
Darren Aronofsky
Scott Franklin
Arnon Milchan
Mary Parent

Fotografia:
Matthew Libatique

Trilha Sonora:
Clint Mansell

 

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