O Poço (“El hoyo”)

O que o filme “Mãe!” de Darren Aronofsky fez com o Cristianismo, “O Poço” do estreante em longas metragens, o espanhol Galder Gaztelu-Urrutia, faz com os sistemas sócio econômicos mundiais do capitalismo e socialismo: uma alegoria e crítica contundente a ambos.

Vamos explicar: Nosso herói Goreng (o desconhecido Ivan Massagué) acorda num complexo vertical com vários níveis junto a um colega de quarto. Logo de cara descobrimos que:
– Não é necessariamente uma prisão. O próprio Goreng escolheu estar lá. É como se fosse um centro de reabilitação onde a pessoa passa alguns meses e depois sai com um certificado.
– A pessoa só pode levar um objeto consigo.
– A cada mês ela acorda em um nível (andar) diferente de forma aleatória, ou seja, não há meritocracia. E seu colega de quarto só muda em caso de morte.
– A refeição ocorre uma vez por dia e é servida numa plataforma que percorre todos os níveis. A conclusão lógica é que o nível de cima se alimenta e vai deixando menos comida para os níveis inferiores.

E é em torno da última regra que gira o filme inteiro: dependendo do nível em que se encontra, talvez não haja comida. E agora? Como as pessoas se comportam num ambiente de falta de distribuição igualitária de alimento onde os níveis de cima da “pirâmide” são mais beneficiados que os de baixo? Essa, de cara, é a grande crítica ao capitalismo e, a partir daí, as pessoas se sentem no direito dos atos mais hediondos onde culpam o sistema, o qual eles chamam de Administração. Será que a Administração tem consciência do que se passa no Poço? Se tem, então fazem vista grossa?

No roteiro, Goreng funciona como o alter ego do espectador que vai descobrindo como as engrenagens do lugar funciona e começa a tomar decisões que podem influenciar em todo o seu funcionamento. Toda a discussão dá espaço para um drama aterrorizante onde claramente há um submundo sem lei dentro de um lugar com leis estritas.

O segundo ato já discute o socialismo: uma vez entendido que há um problema de distribuição de comida e que isso não é “visto” (entre aspas mesmo) pela Administração, como se comportariam as pessoas se elas fossem obrigadas a comer apenas o necessário? E como fazer a Administração entender a verdadeira realidade?

Toda essa discussão se passa num ambiente claustrofóbico em uma mistura de “O Cubo” (lugar) com “Mad Max” (personagens) com os dois primeiros atos referenciando sistema de valores e também religião, já que estão intrinsicamente ligados pela crença da população.

Entretanto, é o último ato que divide opiniões, já que ele deixa o que aconteceu na subjetividade. São tantas as possibilidades que os mais desatentos ou até mesmo os preciosistas podem descartar a trama toda por conta de um desfecho que acharam pouco significativo. Mas um esforço analítico maior pode até não desvendar o segredo do final, mas com certeza vai decifrar mensagens importantes que é justamente a reflexão proposta pelo diretor onde se constata que nenhum sistema social ou de crenças será o ideal se a humanidade não se comprometer com ele.

O Poço” traz reflexão, discussão com entretenimento de gente grande e desde já é um dos grandes filmes de 2020. Ah, e a explicação está nas curiosidades logo abaixo!

Curiosidades:
SPOILER – SÓ LEIA SE JÁ TIVER VISTO AO FILME!!!

A maior parte das explicações já foram validadas pelo diretor em entrevista.

Goreng morre no final? A garotinha existe? Qual é a mensagem? O que acontece no final?

– Primeiro que Goreng e seu último colega de quarto Baharat morrem durante a descida até o nível final (333). Eles descem no último nível e tudo o que acontece a partir daí é uma espécie de fruto da imaginação de Goreng ou desejo do que aquilo fosse verdade em seu pós morte.
O andar abaixo do último piso é uma analogia a um purgatório onde Goreng finalmente conversa com seu primeiro colega de quarto Trimagasi de igual para igual, visto que ambos estão mortos.
– Ou seja, a garotinha não existe e tampouco é a mensagem. Os indícios são até que óbvios já que seria impossível ela se manter forte e bem alimentada no último nível e os próprios personagens discutem a impossibilidade de sua suposta mãe (outra personagem no decorrer do filme) alimentá-la de alguma forma. Até porque é dito que a mulher entrou no Poço sozinha e só passou 10 meses, o que seria inviável ter uma filha daquela idade lá.
– O que acontece no final tem uma pegadinha interessantíssima: há uma cena antes do último ato onde a Panacota (o doce que é tido como mensagem num primeiro momento, após o encontro dos nosso heróis com um senhor sábio num dos níveis de baixo) onde o chefe da cozinha da Administração está possesso porque ninguém comeu a Panacota e acha um cabelo e chama os cozinheiros para punir severamente o dono do cabelo. Essa é a cena FINAL! Na verdade, a mensagem era realmente a Panacota e ela retornou ao nível zero. Só que o efeito não foi o esperado: como no capitalismo e o socialismo, a Administração colocou a culpa no trabalhador (cozinheiros) e não na gestão do sistema. Ou seja, foi tudo em vão.

Quais as demais referências do filme?

– Apesar de muita gente relacionar Goreng com Jesus (até pela semelhança física), ele é o reflexo de Dom Quixote, personagem do próprio livro que ele traz para ler, o qual queria ser o herói de sua própria história. E por isso, no final, mesmo tendo sido tudo em vão, ele já morto, sai satisfeito junto a seu outro colega morto como se sua missão tivesse sido cumprida e ele fosse o herói.
– A referência à Jesus cai mais em Imoguiri, a mulher que era da administração que se matou para que Goreng pudesse se alimentar dela. Inclusive seu comportamento, as chagas referenciam bastante ao personagem bíblico.
– O último piso é o 333 que é metade de 666, o número da Besta. Sou seja, uma alusão a um estágio intermediário entre o céu e o inferno ou até mesmo o purgatório. Pela numerologia 333 significa orações atendidas, mensagem de um anjo ou ascendência divina.
– Apesar de não estar explícito no filme, pelas contas que Goreng faz, a plataforma demora em média 11 horas para descer os 333 níveis. A plataforma também tem 2.022 metros de profundidade.
A palavra “óbvio” (o TOC de Trimagasi) é repetida 26 vezes ao longo do filme.

Ficha Técnica

Elenco:
Ivan Massagué
Zorion Eguileor
Antonia San Juan
Emilio Buale
Alexandra Masangkay
Zihara Llana
Mario Pardo
Algis Arlauskas

Direção:
Galder Gaztelu-Urrutia

Produção:
Ángeles Hernández
Carlos Juarez

Fotografia:
Jon D. Domínguez

Trilha Sonora:
Aránzazu Calleja

 

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