A Árvore da Vida (“The Tree of Life”, EUA, 2011) ***NOS CINEMAS***

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É aquele tipo de filme que os críticos especializados têm orgasmos múltiplos ao ver, enquanto que a maioria dos outros espectadores sai do cinema querendo seu dinheiro de volta. E daí começa uma briga sobre quem tem razão. Nessa logicamente os críticos acusam e menosprezam o espectador dizendo que eles não entendem do “verdadeiro” cinema ou que eles não têm um pingo de sensibilidade. A conseqüência disso é aquele famoso ódio que muita gente tem de críticos.

Mas fica a pergunta: quem tem razão? A resposta não é tão simples. O problema é que “A Árvore da Vida”: não é um filme. Pelo menos não é um filme como os cinemas estão acostumados a exibir. Fazendo um paralelo, esse ano os cinemas 3D exibiram sessões especiais com shows do U2, Jonas Brothers, Justin Bieber, entre outros, e vem aí Glee. Sim, são filmes, mas não como o cinema é acostumado a passar. Quem quer ver um filme no conceito genérico da palavra, não vai ver nenhum desses shows, a não ser os fãs das bandas. “A Árvore da Vida” é o que se chama de filme-conceito. Ou melhor, ao invés de chamá-lo de filme, melhor chamar de obra. Uma obra-conceito. É como um passeio por uma imensa galeria de arte onde as obras (quadros) contassem uma espécie de história, revezando com imagens abstratas que na verdade fazem parte da mesma mensagem. Só que ao invés do espectador dar esse passeio, ele fica sentado por 138 minutos, vendo as obras passarem pela tela de cinema. E com certeza não é todo mundo que vai curtir essa viagem. Assim, como filme em seu sentido mais básico e escapista, o espectador tem toda razão de odiar “A Árvore da Vida” e vai ganhar muito mais escolhendo outra opção. Porém como obra-conceito, é uma produção belíssima.

O filme é quase todo visto sob os olhos de Jack (Sean Penn de “Milk – A Voz da Igualdade”) que relembra sua infância em flashes com seus dois irmãos, sendo constantemente maltratados pelo seu atormentado pai O’Brien (Brad Pitt de “Bastardos Inglórios”). O garoto (o ótimo estreante Hunter McCracken) deixa a raiva consumi-lo até que uma tragédia separe a família, sendo que mais tarde ele deverá (ou não) encontrar e perdoar a si próprio, tal qual como a sua família.

Apesar de ser um drama o que sempre exige um adicional de esforço na atuação, “A Árvore da Vida” é basicamente um filme técnico. O lendário diretor Terrence Malick que saiu de forma em seu último filme “Novo Mundo”, volta com um preciosismo e perfeccionismo ímpares. É incrível como cada cena, cada frame passa uma mensagem, como a do menino saindo da porta de uma casa dentro d’água representando o nascimento, ou a interação das crianças representada pelas suas sombras ou até mesmo a passagem do tempo ilustrada através de cortes rápidos em suas noites de sono.

Malick também funciona como uma espécie de divindade que compara o sofrimento de Jack, como um ser minúsculo versus toda a criação do universo, da Terra e de seus seres (imagens de uma beleza sublime) como processos infinitamente mais importantes, sem é claro tirar a relevância do drama familiar. Com isso evoca uma discussão interessante sobre religião e Deus, sobre como todos estão sujeitos às tragédias, mesmo aqueles que nada fizeram por merecê-las. Inclusive em seu melhor diálogo é quando uma personagem consola a Sra. O´Brien (outra brilhante estreante Jessica Chastain) pela morte do filho com a frase “Agora ele está nas mãos de Deus”, no que é rebatida com “Mas ele não esteve sempre nas mãos de Deus?

A jornada da vida de Jack até sua redenção é orquestrada com maestria e forte simbolismo. E falando em orquestrada, o selo da qualidade onipresente de Alexandre Desplat (do último Harry Potter) também se encontra nesta trilha. “A Árvore da Vida” como obra artística é indispensável. Como filme escapista, vai causar calafrios de indignação na platéia. Mas pelo menos agora se entende o que os críticos vêem numa produção como essa. Infelizmente a maioria dos críticos especializados entendem muito de cinema, mas pouco de seu principal cliente: o leitor.
[rating:4]

Ficha Técnica

Elenco:
Brad Pitt
Sean Penn
Jessica Chastain
Hunter McCracken
Laramie Eppler
Tye Sheridan
Fiona Shaw

Direção:
Terrence Malick

Produção:
Dede Gardner
Brad Pitt
Sarah Green
Grant Hill
William Pohlad

Fotografia:
Emmanuel Lubezki

Trilha Sonora:
Alexandre Desplat

 

2 Comments

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  • layla cupertino
    on

    sempre leio suas criticas, e sempre aconselho meus amigos a lerem tambem. mas nunca sente a necessidade de fazer um comentario, apesar de concordar com todas suas criticas, mas simplismente voce se superou neste post. parabens pela forma magestosa como voce analisa o filme, os criticos e tudo em si, continue sempre assim. abraços

  • Jazz
    on

    Um filme lindo, sensibilíssimo, com belas imagens, trilha sonora. Roteiro lento, quase arrastado. Muitas imagens totalmente dispensáveis.

    Bom, mas poderia ser melhor, se não tivesse toda uma *proposta* artística por trás.

    Um filme-proposta.

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