Alemão

Fernando Meirelles instituiu no novo cinema brasileiro com épico “Cidade de Deus” um novo gênero chamado “filme de favela” que posteriormente foi coroado e institucionalizado com os excelentes “Tropa de Elite” e “Tropa de Elite 2: O Inimigo Agora é Outro”. Tudo que veio e vem entre ou depois destas produções visam ou simplesmente são imitações que em maior ou menos grau podem até se igualar ao nível das obras citadas. Daí a colocar Cauã Reymond num papel de gansgter com aquela cara de bad boy criado por vó já é uma má idéia, como se andar como um corcunda, fumar o que vê pela frente e falar 380 palavrões por segundo fossem suficientes para atuar como vilão.

Bom seria se essa fosse a única má idéia. O argumento do filme não se sustenta. Vou contar a sinopse em itálico e comentar em negrito:

Os bandidos da favela liderados pelo Playboy (Reymond) pegam de um motoqueiro documentos desmascarando cinco policiais infiltrados no Complexo do Morro do Alemão próximo de sua invasão em 2010. O espectador vai descobrir que o tal motoqueiro foi mandado pela própria polícia para coletar esses documentos. Pra que? A polícia já sabia que eles estavam lá, então que idiotice o levou a essa ação?

Desconfiados de que foram descobertos, esses espiões se escondem numa pizzaria de fachada de um deles, por sinal, o único que não tinha documentos na mochila do motoqueiro. Porque só ele não tinha? Para conservar a confidencialidade desse ponto de encontro seria a desculpa mais esfarrapada que invalidaria toda a ação de levar documentos, visto que, qualquer que fosse o ridículo motivo, não faria sentido ter a identidade apenas de alguns e não de todos.

Chegando lá, mais ou menos até a metade da projeção, eles ficam brigando entre si, achando que um deles poderia tê-los traído. Detalhe: eles são do Departamento de Inteligência da Polícia. Eles se conheciam e estavam, no mínimo, a meses em missão. Porque raios ficariam desconfiando um do outro? E se um deles já sabia o que se passou, porque só contou quase no fim do segundo ato? Pra fazer suspense para o público? Só se for.

Encurralados, eles tem como missão sair vivos e entregar à polícia um mapa pregado no porão da pizzaria com todas as entradas para o morro, facilitando assim a invasão das forças armadas. Espera um minuto: quer dizer que o motoqueiro saiu da pizzaria com documentos de todos os infiltrados e não levou o que seria o documento chave para o sucesso da operação? No mínimo, essa é a força policial mais incompetente da face da terra e não admira que o Brasil esteja entregue à violência.

Apesar de a favela toda estar “fechada” e sem sinal de celular, o tal motoqueiro que escapa dos traficantes consegue entrar e sair do morro com uma facilidade ímpar, mas que não faz absolutamente nada para ajudar nossos heróis, mesmo com esse trânsito livre, a não ser fazer citações bíblicas com uma emoção que lembra o Cigano Igor de “Explode Coração”.

Daí pra frente, “Alemão” até que transcorre de maneira mais eficaz e ágil com reviravoltas razoáveis se comparadas com o que veio antes. O problema é que esse “daí pra frente” já é o último ato e a platéia já teve que engolir muito sapo sob a forma de um roteiro que insultou a sua inteligência e clichês batidos do gênero. Ainda tem uma subtrama desnecessária envolvendo o delegado (Antônio Fagundes também desnecessária) e o policial interpretado por Caio Blat que não faz feio nem bonito.

O que vale mais em “Alemão” é a sua relevância como registro histórico, mesmo que ficcional traduzido em alguns bons momentos. Mas bem que poderiam fazer uma homenagem melhorzinha, hein?

Ficha Técnica

Elenco:
Caio Blat
Cauã Reymond
Gabriel Braga Nunes
Mariana Nunes
Milhem Cortaz
Otávio Muller
Antônio Fagundes

Direção:
José Eduardo Belmonte

Produção:
Rodrigo Teixeira

Fotografia:
Alexandre Ramos

Trilha Sonora:
Guilherme Garbato
Gustavo Garbato

 

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