Benedetta

O filme deveria se chamar “Uma Deusa, Uma Louca, Uma Feiticeira”, como na famosa música da dupla Rick & Renner. Não só pela protagonista que parece abraçar de tudo isso um pouco, mas pelo estilo “deuso, louco e feiticeiro” do cineasta holandês Paul Verhoeven. Nessa produção ele parece misturar o que ele tem de melhor, como o visto no ótimo suspense “Elle”, com o comercial clássico meio que sensual “Instinto Selvagem” de 1992 com o erotismo pé de chinelo que quase afundou a sua carreira em “Showgirls” de 1995.

A produção é baseada numa história real descrita no livro de Judith C Brown “Atos Imodestos de uma Freira Lésbica no século XVII” (tradução livre) sobre Benedetta, uma freira que a partir dos 23 anos começa a dizer que teve visões eróticas de Jesus e desenvolve um caso lésbico com outra freira, clamando que estaria possuída por um espírito masculino (isso não tem no filme) e por isso não seria pecado.

Vivida no cinema pela belíssima Virginie Efira de “Um Amor à Altura”, sua ótima caracterização é constantemente sabotada pelo roteiro e direção. O desenvolvimento do arco da protagonista é ainda mais confuso, pois não se sabe em que momento que ela ambiciona uma posição de poder dentro de sua abadia: a conspiração mostrada que envolve desde a abadessa mestra até o alto arcebispado só existe no filme e então pareceu um encaixe muito estranho no roteiro, muitas vezes misturando o que poderia ser um ótimo drama com um suspense meia boca.

Não só Benedetta como todas as personagens principais tem um arco emocional mal contado: sua amante Bartolomea (outra linda atriz Daphne Patakia) parece uma bipolar, hora provocando, hora repelindo a protagonista; a própria abadessa (Charlotte Rampling de “Duna”) parece mudar de opinião a todo momento. O personagem mais coeso e dono das melhores frases (incluindo a última dele no filme) é o Núncio (espécie de bispo) interpretado por Lambert Wilson de “Matrix”.

O design de produção é esquisito e parece muitas vezes encenar uma peça de teatro barata. As cenas das visões da freira são uma mistura constrangedoramente engraçadas de Tarantino em “Django Livre” com Porta dos Fundos, inclusive com efeitos especiais digitais sinistros.

Benedetta” deve dividir opiniões, mas difícil é tentar se safar de uma mistura narrativa que leva a arte ao flertar com o absurdo.

Ficha Técnica

Elenco:
Virginie Efira
Charlotte Rampling
Daphne Patakia
Lambert Wilson
Olivier Rabourdin
Louise Chevillotte
Hervé Pierre
Clotilde Courau
David Clavel
Guilaine Londez
Gaëlle Jeantet
Justine Bachelet
Lauriane Riquet
Elena Plonka
Héloïse Bresc
Jonathan Couzinié
Vinciane Millereau
Jérôme Chappatte
Erwan Ribard

Direção:
Paul Verhoeven

Produção:
Saïd Ben Saïd
Michel Merkt
Jérôme Seydoux

Fotografia:
Jeanne Lapoirie

Trilha Sonora:
Anne Dudley

 

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