Marighella

A arte é uma das formas mais definitivas de um país exorcizar seus demônios do passado, mesmo que ainda haja resquícios deles no presente ou ainda novos demônios. Por exemplo, há um sem-número de filmes que falam sobre o nazismo e, ainda assim, temos atualmente um crescimento do partido nazista na Alemanha. Da mesma forma há incontáveis números sobre o Apartheid e, ainda assim, após a morte de Nelson Mandella, os conflitos raciais na África do Sul vem crescendo.

O Brasil tem a sua cota, mas sempre pareceu insignificante, sempre pareceu silencioso (para ver um bom artigo sobre outros filmes venha aqui). “Marighella” deveria ter sido feito há pelo menos 20 anos e, mesmo sendo lançado agora, rompe com esse status quo de normalização da violência da ditadura.

Filmado em 2017 e estreando quase 4 anos depois por conta da pandemia e de uma agenda política que envolveu até boicote ao filme e robôs afins ao governo para degradá-lo em avaliações coletivas internacionais (IMDB, Rotten Tomatoes), a estreia do ator Wagner Moura na direção foi um triunfo, não apenas pelo propósito, como também pela técnica e pelo resultado.

O ator e cantor Seu Jorge é o protagonista que, apesar de diferenças físicas sensíveis, prova que, ao contrário da cartilha de Hollywood que geralmente conta histórias reais com uma impressionante aproximação física através do casting minucioso, próteses e pesadas maquiagens, o talento para incorporar um personagem é ainda o mais relevante.

Seu Jorge (que já trabalhou com Moura em “Tropa de Elite 2“) abraça o papel de Carlos Marighella que viu na luta armada a única forma de fazer a revolução, tal qual em Cuba e no Vietnã (citado inclusive mais de uma vez no filme). Foi líder do grupo Ação Libertadora Nacional e um dos grandes inimigos da ditadura.

O início do filme em tomada única numa sequência eletrizante num trem já mostra que Moura ultrapassou os limites daquele formato novelesco que muitas produções nacionais se cercam e foi atrás de uma narrativa mais universal, o que vai se mostrar em todo o desenvolvimento da trama. A câmera está sempre em movimento provocando constante tensão para dar ao espectador o gostinho do que é estar sempre sobressaltado como se algo de ruim estivesse sempre para acontecer.

Além de Seu Jorge, a atuação de Bruno Gagliasso está impressionante como o antagonista Delegado Lúcio. Eu que nunca fui fã dele, mudei de idéia.

Finalmente um golaço do roteirista e diretor é não se posicionar sobre o protagonista, deixando que Marighella pudesse ser sim uma figura controversa que apelou para extremos ao combater o governo militar sem nunca ter chancelada a alcunha de herói, ao mesmo tempo em que faz o espectador conhecê-lo como pai, marido, guerrilheiro, além das difíceis escolhas que fez para moldar, em sua visão, um Brasil melhor. Inclusive em seu discurso final ele admite que escolheu um caminho que poderia ser ou não o melhor.

Marighella” poderia facilmente representar o Brasil no Oscar, pois tem todo o conjunto de elementos artísticos e técnicos que uma produção de grande porte cultural precisa e, de bônus, fala sobre um momento que foi muito relevante na história e parece ser cada vez mais na atualidade.

Ah, há uma cena no meio dos créditos com o hino nacional que tenta o simbolismo, pouco agrega, mas também não prejudica.

Curiosidades:

– Muitos dos jovens atores preferiram usar seus próprios nomes para dar vida aos personagens, pois se sentiram muito ligados a história (mesmo que os nomes dos personagens reais fossem diferentes).
– Maria Marighella neta de Carlos Marighella é amiga de Wagner Moura e faz o papel da própria avó no filme.
– O personagem que faz a entrevista com Marighella e o “Branco” é um repórter francês que tenta falar espanhol.
– O episódio do sequestro do embaixador americano que aqui foi passado de forma breve, foi tema do filme “o Que é Isso Companheiro?” de 1997.

Ficha Técnica

Elenco:
Seu Jorge
Bruno Gagliasso
Luiz Carlos Vasconcelos
Herson Capri
Adriana Esteves
Humberto Carrão
Jorge Paz
Bella Camero
Henrique Vieira
Ana Paula Bouzas
Guilherme Ferraz
Rafael Lozano
Adanilo Reis
Guilherme Lopes
Charles Paraventi
Carla Ribas

Direção:
Wagner Moura

Produção:
Andrea Barata Ribeiro
Bel Berlinck
Wagner Moura

Fotografia:
Adrian Teijido

Trilha Sonora:
Samuel Ferrari

 

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