Noite Passada em Soho (“Last Night in Soho”)

Poderia ser facilmente um filme de Guilhermo Del Toro, mas foi Edgar Wright de criativas comédias e ação inovadora como “Em Ritmo de Fuga” responsável por esse interessantíssimo e peculiar suspense.

O plot não tão simples de explicar: Thomasin McKenzie de “Tempo” é Ellie, uma garota que sofre de esquizofrenia e se muda para Londres para cursar a faculdade de moda. No quartinho que ela alugou no andar de cima de uma velha casa, ela passa a ter sonhos passados na década de 60 onde ela é a sensual Sandy, na pele de Anya Taylor-Joy de “Novos Mutantes”. Os sonhos se transformam em pesadelos e Ellie começa a não distinguir mais realidade e ficção (será mesmo ficção?).

O que chama atenção na história é que o espectador não faz idéia para onde a trama vai correr, muito menos a natureza desses sonhos ou visões. Ironicamente a trama envolve de uma tal forma que é fácil aceitar que as tais visões não precisam de explicação ou mesmo que a protagonista pode (ou não) ter algum poder psíquico especial, o que também não é mencionado.

Aliás, Thomasin McKenzie faz uma perfeita maníaca, ou melhor, uma doente psicológica grave e seus surtos são tão convincentes que a gente chega e ficar agoniado. Sua voz falha e em falsete com um pesado sotaque do interior da Inglaterra realça ainda mais a fragilidade e loucura da personagem.

Outro ponto de destaque foi a técnica empregada para revezar entre as atrizes durante as visões de Ellie, já que uma se espelha na outra. Foram feitos pouquíssimos efeitos digitais e muito mais efeitos práticos como edições e posicionamentos de câmera que permitiam a troca das atrizes numa cena dinâmica sem o espectador perceber, graças a ótima fotografia de Chung-hoon Chung de “Pássaro do Oriente“.

Mais que isso, deu uma estética dos grandes suspenses dos anos 60 de Alfred Hitchcock e Roman Polanski, com um desfecho que surpreende por trazer essa estética para uma ação que mistura o momento com o que se passa na mente de Ellie. Para uma imersão completa nos anos 60 a trilha sonora e seleção do diretor Edgar Wright e do compositor Steven Price (“Os Aeronautas“) foi acertadíssima.

Noite Passada em Soho” é um suspense longe dos lugares comuns em qualquer aspecto e onde o espectador mente aberta vai se envolver totalmente.

Curiosidades:

– As cenas de Londres vazia nos créditos finais foram feitas durante o Lockdown em horário comercial para provar como a cidade estava vazia.
– Último filme de Diana Rigg que interpreta a dona da casa onde Ellie aluga o quarto, falecida em setembro de 2020. O filme é dedicado em sua memória.
– O título original do filme é o nome de uma música lançada em 1968 da banda Dave Dee, Dozy, Beaky, Mick & Tich e toca nos créditos finais.
– O Café de Paris, lugar proeminente na história, foi filmado na realidade no Cinema Empire. O verdadeiro Café de Paris, que fica há poucas quadras do cinema foi fechado em dezembro de 2020 depois de mais de 100 anos funcionando, devido à crise econômica provocada pela pandemia.
– No início do filme a avó de Ellie fala sobre a rua Carnaby, conhecida por sua elegância e lojas caras. No quarto de Ellie na casa da avó a palavra Carnaby está pregada na porta.
– Na festa a fantasia as amigas de Ellie estão vestidas da mesma forma que as personagens de “As Jovens Bruxas” de 1996. E a personagem Jocasta, antagonista de Ellie, está vestida como Nancy, a vilã do filme, propositalmente.
– Há várias referências aos filmes de James Bond:
1. Na fachada do Café Paris há a propaganda de “007 contra a Chantagem Atômica” de 1965.
2. O drink que Sandie pede é chamado Vesper. Ele foi criado para “Cassino Royale” em homenagem à personagem Vesper Lynd.
3. Escalou Diana Rigg que foi Bond Girl em “007 – A Serviço Secreto de Sua Majestade” de 1969.

***SPOILERS – SÓ LEIA APÓS TER VISTO O FILME***

– Há várias pistas prevendo que a dona da casa que Ellie vai morar é a própria Sandy e que ela virou uma serial killer:
1. A senhora diz a Ellie que tem que tapar o ralo no verão por causa do mal cheiro logo na primeira visita. É por causa dos corpos que ela escondeu na casa.
2. Quando Ellie vai na biblioteca procurar por uma jovem desaparecida, ela só encontra casos de empresários desaparecidos (as vítimas de Sandy).
3. Pouco antes de ter sua identidade revelada, Ellie passa rapidamente as cartas recebidas na casa e numa delas pode-se ver o nome Alexandra que era o verdadeiro nome de Sandy.
4. Quando a senhora diz o endereço da casa a Ellie e quando Sandy diz o endereço de sua casa a Jack, ambas falam exatamente do mesmo jeito.

Ficha Técnica

Elenco:
Thomasin McKenzie
Anya Taylor-Joy
Matt Smith
Diana Rigg
Michael Ajao
Terence Stamp
Sam Claflin
Synnove Karlsen
Aimee Cassettari
Rita Tushingham
Colin Mace
Jessie Mei Li
Kassius Nelson
Rebecca Harrod
Alan Mahon
Pauline McLynn
Elizabeth Berrington
James Phelps
Oliver Phelps
Beth Singh
Paul Brightwell

Direção:
Edgar Wright

Produção:
Tim Bevan
Eric Fellner
Nira Park
Edgar Wright

Fotografia:
Chung-hoon Chung

Trilha Sonora:
Steven Price

 

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