O Primeiro Mentiroso (“The Invention of Lying”, EUA, 2009)

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Imagine um mundo onde ninguém mente. Não porque não podem, mas porque simplesmente desconhecem o sentido e a palavra mentira. Mais que isso, não concebem o que é o ato de falar algo que não seja a verdade. Se você não conseguiu imaginar um mundo assim, talvez vá achar “O Primeiro Mentiroso” algo muito… mentiroso.

Mas é nesse mundo que vive Mark (O comediante britânico Ricky Gervais de “Ghost Town“), um roteirista frustrado, longe de ser um galã, com o emprego a perigo e sem chance de conseguir a garota por quem ele é apaixonado (Jennifer Garner de “Idas e Vindas do Amor“). O filme passa o primeiro ato desfiando as várias possibilidades de um mundo onde só se diz a verdade em diálogos que beiram a genialidade.

No caixa de um banco, ao ser deparado com o sistema fora do ar, nosso herói – através de sabe quais descargas cerebrais – acaba mentindo, dizendo que possui uma quantia em sua conta maior do que a real. Recebendo de pronto o dinheiro (veja que nesse mundo se acredita mais nas pessoas do que nos sistemas) ele se descobre o único capaz de mentir. E aí o segundo ato confronta situações onde a mentira bate de frente com a credulidade do resto da população.

Gervais, além de protagonista, é o diretor, roteirista e produtor dessa pérola da comédia que transpira originalidade. Como ator, ele tem um timing comigo perfeito para o papel de um perdedor de plantão. Como diretor e roteirista, consegue explorar praticamente todas as situações possíveis que um cenário inverossímil como esse poderia proporcionar. De tão prestigiado que é a obra, grandes atores como Edward Norton (“Força Policial“), Philip Seymour Hoffman (“Os Piratas do Rock“) e Jason Bateman (“Maré de Azar“), entre outros aceitaram fazer apenas pontas de luxo para marcar presença.

Longe de ser um épico de comédia, “O Primeiro Mentiroso” trabalha muito bem os elementos primários do gênero como ótimos diálogos, uma produção bem cuidada e uma boa presença em cena dos atores, principalmente do principal que lembra performances carismáticas de Peter Sellers. E prova que não precisa ser grande para ser bom. E no caso, é ótimo.

[rating:4]


Ficha Técnica

Elenco:
Ricky Gervais
Jennifer Garner
Louis C.K.
Rob Lowe
Jonah Hill
Jeffrey Tambor
Fionnula Flanagan
Tina Fey
Christopher Guest
Jimmi Simpson
Jason Bateman
Donna Sorbello
Stephanie March
Alton Fitzgerald White
Philip Seymour Hoffman
Edward Norton

Direção:
Ricky Gervais
Matthew Robinson

Produção:
Sue Baden-Powell
Dan Lin
Lynda Obst
Oly Obst

Fotografia:
Tim Shirstedt

Trilha Sonora:
Tim Atack

 

1 Comment

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  • Clayton
    on

    Ricky Gervais tornou-se “persona no grata” em Hollywood tanto por sua infeliz apresentação no Globo de Ouro, como por sua frase pós show “Por duas horas Hollywood se c… de medo de mim”. Acabei por ter antipatia pelo ator por suas atitudes que contrastam e muito com seus personagens vistos anteriormente, como por exemplo, o inofensivo curador de “Uma noite no museu”. Porém, não há como negar que talento ele tem, mais que provado nessa película onde ele assobia e chupa cana, e com competência. O mundo sem mentiras é explorado em toda a sua graça, mostrando através de piadas, não que a mentira deve prevalecer e sim, o quanto a verdade dói. Depois de extrair o supra-sumo do que acontece ao se dizer somente verdade, dá-se ao trabalho de também explorar toda as possibilidades da mentira, desde sua aplicação mais inocente ou bem intencionada, até as suas mais graves consequências, e sem querer levantar bandeira alguma, principalmente da hipocresia, mostram-se estas consequências como imprevisíveis pelo comediante, ao contrário do destino fatídico e certo de cada verdade contada. É como que se quisesse demonstrar que perdemos o controle da situação uma vez que mentimos, pois depende de outros para não ser desmascarada, já quando se diz a verdade ela por si só se sustenta. O filme é muito engraçado e todos estão corretos em seus respectivos papéis, destaque para a total falta de sutileza da sincera (e mais bela atriz sem seios de Hollywood, Jennifer Garner), e para a grande sacada que é, já que só se conta a verdade nesse mundo, os filmes só poderiam ser documentários, genial. Não se esquivou também da crítica religiosa, embora não exista assunto mais espinhoso. Filme que estimula e muito uma análise mais profunda, mas nem por isso complicado de se entender, ao contrário, espetacularmente acessível. Ricky Gervais tem meu respeito profissional, mas jamais jantará em minha casa.

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