Pânico (“Scream”)

Todos nós merecemos um pouco desse “Pânico” nas nossas vidas. Talvez até menos por ser um filme muito bom (e o filme é muito bom) e mais porque ele descreve exatamente e literalmente o momento cultural pelo qual estamos passando, principalmente no cinema.

Primeiro ele define didaticamente o conceito de “requel”, uma junção de “remake” com “sequel” (sequência), que é uma espécie de sequência que começa algo novo, partindo de elementos da franquia preexistentes. Para se ter uma idéia é exatamente isso que está acontecendo com todas as franquias da atualidade, desde “Star Trek”, passando por “Matrix”, “Star Wars”, “Halloween”, “Caça-Fantasmas”, “Candyman”, “Blade Runner 2049”, “Jurassic Park”, “Exterminador do Futuro” e muitas outras, onde aparecem os personagens da saga original “passando a tocha” (prestem atenção nessa expressão) para novos personagens na franquia.

Daí vemos que o Ghostface voltou a matar em Woodsboro (logicamente é outra pessoa), e blá blá blá e lá pelas tantas os personagens sobreviventes da franquia voltam, incluindo, é claro, Sidney Prescott e blá blá blá (o que é o de menos) e daí todos queremos saber quem é (ou quem são) o assassino, o que é legal, mas de verdade nem tão relevante assim, porque se o assassino poderia ser qualquer um e pelos motivos mais genéricos que existem, então o resultado é apenas uma questão de escolha do roteiro. É claro que há certa surpresa e a campanha de marketing em alguns cartazes do filme de “O assassino está neste poster” foi muito bem bolada. Veja:

Só que o relevante é que mais uma vez o filme desconstrói o gênero de terror slasher, dessa vez sob à luz desse novo momento do cinema. Ainda faz excelentes comparações com gêneros de terror mais cabeça como nos filmes “O Babadook”, “Hereditário”, “Corrente do Mal” e “A Bruxa”.

O encanto de “Pânico” está na aula de cinema e nas referências pop que ele propõe para o espectador. Outro ponto importante é que mais uma vez a produção discute de forma bem-humorada o papel dos fãs e dos fã clubes (agora chamados de fanfic, vá entender…) e de como isso manipula seus membros de forma a nutrirem os mais diversos sentimentos por gente que nem imagina que eles existem.

Ah, mas e o filme? A parte, digamos, operacional, é muito bem feita. A dupla de diretores Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett, responsáveis pelo ótimo “Casamento Sangrento”, conseguiu manter o espírito da saga e fex mortes com a violência gráfica no ponto exato e efeitos especiais muito apurados, além de um clima que ao mesmo tempo em que parodia a sí próprio, não deixa de manter a urgência que o tema de um assassino a solta pede. Inclusive conseguiram fazer um convincente vínculo com o original através de um drama familiar com a nova personagem Sam (a desconhecida Melissa Barrera).

Pânico” não só é ótimo, como necessário, por mais que quem quer que seja o assassino nem seja a cereja do bolo. Contudo é diversão na certa, com referências inteligentes e afiadas (sem trocadilhos).

Curiosidades:

– Há uma grande homenagem a Wes Craven, diretor do original e de tantos outros clássicos, que faleceu em 2015, devido a um câncer. Inclusive um dos personagens se chama Wes. Outra homenagem é que na cidade aparece a rua Elm que é a mesma rua da franquia “A Hora do Pesadelo” criada por ele.
– Também há uma homenagem a outro mestre do terror John Carpenter (criador de “Halloween”), pois o sobrenome da protagonista é Carpenter.
– David Arquette, o Dewey do original que retorna à saga também é instrutor de pintura e nos intervalos dava aula de graça para o elenco e equipe de filmagem.
– A voz no telefone é feita pelo mesmo ator, Roger L. Jackson, desde o primeiro filme.
– Apesar de Patrick Dempsey, o Mark de “Pânico 3” não aparecer nesse filme, descobrimos que ele e Sidney se casaram e tiveram filhos.
– A irmã de Dewey foi morta no primeiro filme e nunca mais ouvimos falar dela nem mesmo pelo personagem. Neste, há uma cena onde as cinzas dela aparecem na sala da casa de Dewey.
– Para evitar vazamentos do roteiro, foram filmados vários desfechos diferentes. Também antes de cada sessão a vos de Ghostface aparece no cinema dizendo que é proibido dar spoilers depois do filme.
– Coincidentemente a personagem Amber Freeman tem o mesmo nome da esposa de um dos roteiristas.
– Há uma cena em que a personagem Tara aparece vendo “Dawson’s Creek”. Kevin Williamson, roteirista de toda a série Pânico também foi o criador de “Dawson’s Creek” e grande parte da equipe de filmagem de “Pânico” é a mesma.
– Há uma cena em que é citado o clássico filme de Alfred Hitchcock, “Psicose” de 1960. Logo depois da citação, aparece o exato ângulo do chuveiro visto em “Psicose” antes de um assassinato.

SPOILERS!!! SÓ LEIA SE JÁ TIVER VISTO O FILME!!!

– Quando é revelado que Sam Carpenter é filha de Billy Loomis (um dos assassinos do primeiro filme da série), é como se o nome dela fosse Sam Loomis que é o personagem do primeiro “Halloween”, outra homenagem a John Carpenter.
– Dewey acerta quem é o assassino (um dos) logo de cara e ninguém percebe.
– Seria impossível que Amber tivesse a força para matar Dewey ou outras demonstrações que ocorrem no filme, sendo essa talvez uma das grandes falhas de roteiro.

Ficha Técnica

Elenco:
Neve Campbell
Courteney Cox
David Arquette
Melissa Barrera
Marley Shelton
Jenna Ortega
Dylan Minnette
Jack Quaid
Jasmin Savoy Brown
Sonia Ammar
Mikey Madison
Mason Gooding
Kyle Gallner
Reggie Conquest
Heather Matarazzo
Chester Tam

Direção:
Matt Bettinelli-Olpin
Tyler Gillett

Produção:
Paul Neinstein
William Sherak
James Vanderbilt

Fotografia:
Brett Jutkiewicz

Trilha Sonora:
Brian Tyler

 

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