Uma Nova Vida (“High Life”)

Talvez um dos filmes mais bizarros de ficção científica dos últimos tempos. É como se “Interestelar” encontrasse com “Ninfomaníaca”.

Começamos vendo Robert Pattinson de “Tenet” sozinho dentro de uma nave já desgastada com um bebê e com a impressão de que nada mais resta para eles além de ficar vagando pelo espaço enquanto duram os estoques de comida, água e oxigênio. Então a história vai mostrando em flashbacks o que realmente aconteceu com a equipe e quem eles são, o que leva a um estranho experimento de cunho sexual e reprodutivo que tinha tudo para dar errado.

Um dos fatores que chama atenção é o design de produção, visto que tanto a nave quando o figurino fogem do estereótipo de ficção científica: os corredores da nave lembram os de um hotel com seus tons de marrom, enquanto o formato retangular da nave não traz a aerodinâmica tradicional, como se ela traduzisse a própria abstração narrativa que o filme quer passar.

O ritmo foi feito para ser lento, com algumas cenas abstratas, mas todas incitando uma tentativa de conexão entre seus personagens, seja sexual ou emocional. No que tange a sexo, há uma interessante e sinistra mensagem que relaciona fraqueza com a prática e fortaleza com o celibato, e é o que diferencia o protagonista dos demais personagens.

Juliette Binoche de “Tal Mãe, Tal Filha” protagoniza duas cenas emblemáticas de sexo que praticamente resumem essa busca por conexão, seja na solitude ou na solidão, da mesma forma em que o personagem de Pattinson tem toda a sequencia com o bebê que estimula a conexão emocional.

Como os personagens tem uma série de falhas de caráter e estereótipos de transtornos mentais (o motivo está no filme), suas motivações nem sempre são entendidas pelo expectador (não é obrigado a tal) e talvez quando se junta alguns eventos a um ritmo quebrado, a narrativa não fique tão coesa e dinâmica quanto poderia.

O desfecho é ao mesmo tempo esperançoso e subjetivo, trazendo algo de bucólico depois de eventos tão pesados, mesmo que pareça definitivo.

Uma Nova Vida” fica meio fora de compasso, mas tem força para demonstrar artisticamente a conexão entre pessoas num ambiente tão peculiar.

Curiosidades:

– O bebê do filme é a filha de um amigo de Robert Pattinson e por isso eles se deram tão bem.
– O filme era para ser falado em francês, mas a diretora Claire Denis entendeu que numa missão espacial multinacionalidade as únicas línguas possíveis eram o inglês e o russo e logicamente optou pelo inglês.
– O script era metade do tamanho do script normal para aquela duração de filme. A diretora fez isso propositalmente para que o elenco fosse tendo idéias para a história na hora e escrevendo o roteiro no meio das gravações.
– O fato dos passageiros terem o número 7 estampados em seus uniformes significa que existe mais de uma missão tripulada no espaço, talvez com propósitos diferentes.
– A mãe da diretora morreu no meio das filmagens. A diretora ia e voltava para França nos fins de semana para visita-la.
– O filme se passa durante 18 anos (6.750 dias) a numa nave a 99% da velocidade da luz, o que pelas leis da física, na Terra teria se passado 210 anos (76.864 dias).

Ficha Técnica

Elenco:
Robert Pattinson
Juliette Binoche
André 3000
Mia Goth
Agata Buzek
Lars Eidinger
Claire Tran
Ewan Mitchell
Gloria Obianyo
Scarlett Lindsey
Jessie Ross

Direção:
Claire Denis

Produção:
Laurence Clerc
Oliver Dungey
Christoph Friedel
D.J. Gugenheim
Andrew Lauren
Klaudia Smieja
Claudia Steffen
Olivier Thery Lapiney

Fotografia:
Yorick Le Saux
Tomasz Naumiuk

Trilha Sonora:
Stuart Staples
Tindersticks

 

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