O Livro de Eli (“The Book of Eli”, EUA, 2010) ***NOS CINEMAS***

Algo que “O Livro de Eli” e “Ninja Assassino” tem em comum: cenas de ação de extremo apuro técnico e que deixa o espectador vibrando, porém com problemas comprometedores de narrativa. Se em “Ninja Assassino” ela é muito solta e descuidada, em “O Livro de Eli” há um problema conceitual gravíssimo.

Numa terra assolada pelas guerras e por um misterioso fenômeno solar (imagino algo como o que houve em “Presságio“) um andarilho (Denzel Washington de “O Seqüestro do Metro 123“) carrega um livro o qual protege com unhas e dentes e luta com aptidões quase sobre-humanas fazendo picadinho de quem se mete com ele. Ao chegar numa cidadezinha – a qual no estilo “Mad Max” se parece mais com o velho oeste – ele se depara com Carnegie (Gary Oldman de “Alma Perdida“), o sanguinário líder da cidade que a comanda com seus capangas e punhos de ferro. E ele também está atrás desse livro.

As lutas são simplesmente impecáveis e o confronto armado dentro de uma casa de um casal de senhores, faz qualquer filme de guerra parecer brincadeira. Com efeitos que simulam longas cenas com uma só tomada, os Irmãos Hughes (“Do Inferno“) inovam cada vez mais a abordagem do estilo ação.

Porém infelizmente o roteiro conseguiu comprometer a produção com falhas monstruosas. A primeira está na própria motivação do vilão. Ele diz que com o livro ele pode construir novas cidades, pois as suas palavras saem do livro e não de sua boca. Porém em determinado ponto, o espectador tem conhecimento de que 99.9% da população restante é analfabeta, já que se passaram 30 anos após o fenômeno e nas guerras quase todos os livros foram queimados. Então que serventia tem aquele livro em especial, já que ele poderia pegar qualquer livro e liderar esse povo? Inclusive no desfecho o protagonista até usa essa abordagem para cumprir a sua missão. E mais: se ele já domina o povo com sua força bruta, pra que o livro se nem seus capangas acreditam nele? E que cidades próximas são essas que ele quer construir ou dominar, já que em todo o trajeto, essa é a única pequena cidade restante?

Oldman encara o vilão de sempre, porém essas falhas e a falta de histórico o deixaram apenas como um facínora vazio. Até a bela Mila Kunis (“Max Payne“) funciona aí como figuração. “O Livro de Eli” não é nada mais que uma sensacional trabalho de técnica e arte com fotografias belíssimas, mas sem o menor alicerce para funcionar como história e nem as artes marciais de Denzel Washington conseguiram salvá-lo dessa.

[rating:2.5]


Ficha Técnica

Elenco:
Denzel Washington
Gary Oldman
Mila Kunis
Ray Stevenson
Jennifer Beals
Evan Jones
Joe Pingue
Frances de la Tour
Michael Gambon
Malcolm McDowell
Tom Waitts

Direção:
Albert Hughes
Allen Hughes

Produção:
Broderick Johnson
Andrew A. Kosove
Joel Silver
David Valdes
Denzel Washington

Fotografia:
Don Burgess

Trilha Sonora:
Atticus Ross
Leopold Ross
Claudia Sarne

 

2 Comments

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  • Ana Guiselini
    on

    A qualidade das suas críticas é ímpar. Visitar sua página me faz lembrar que estou totalmente em dívida com a sétima arte, mas ao mesmo tempo é uma forma de me deixar mais próxima de tudo que está rolando. Adoro! =)

  • saullo
    on

    cara…vc tem umas criticas muito boas, mas essa eu nao gostei.

    acabei de ler a sua critica em salt e vc filosofou sobre o filme, viu coisas nas entre linhas e ainda foi mais ousado quando falou q “idiotas” nao veriam isso, mas é incrivel como vc nao conseguiu enxergar coisas tao banais, simples como as q estao neste filme.

    o seu argumento sobre analfabetismo mostra o pouco q vc conhece sobre historia, pois se vc nao sabe, a biblia era escrita toda em latim e essa era uma lingua que so a galera da igreja tinha dominio, ou seja, o povo era “analfabeto” desde sempre e mesmo assim era preciso este livro para exercer este controle. (o mesmo controle que o cara mau do filme queria ter)

    sabe…nao queria entrar neste assunto…e nem nesta conclusao…mas…este filme realmente foi feito para cristao, pois “muitos verão, mas nao enxergarao, e muitos ouvirão, mas nao entenderao”.

    e eu sei q a minha concordancia ta uma merda, mas…tow nem ae.

    destaque fica para a ideia mesmo do cara q escreveu o filme (esqueci o nome), colocar as duas faces da coisa. de uma lado um cara que realmente conhece deus e tenta fazer o q é certo e do outro lado um cara q so quer usar a palavra pra comandar, pra dominar pessoas.

    deus nao é religiao, deus nao é dominaçao, deus é amor, e quem usa sua palavra e sua imagem de forma errada, com más intençoes, nao é digno de raiva, mas sim de pena, pq ainda nao o conheceu.

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