Amantes Eternos (“Only Lovers Left Alive”)

O cineasta Jim Jarmusch é a essência do que se pode chamar de alternativo. Não faz filmes comerciais e talvez nem filmes normais por assim dizer. Sua profissão é utilizar simbolismos e meta linguagens para captar a passagem no tempo de personagens complexos desvelando-se em um clímax (ou não). Se em “Os Limites do Controle” ele extrapolou um pouco essa sua característica cult, nesse “Amantes Eternos” ele encontra um ponto de equilíbrio. Para se ter uma idéia da sua aversão ao comercial, a produção continha um pouco de ação e, quando o estúdio pediu ainda mais ação, Jarmusch retirou toda a ação deixando apenas o drama.

Conta a história de dois vampiros chamados Adão e Eva (não são os da Bíblia, mas já deu pra sentir o simbolismo, certo?) vividos por Tom Hiddleston (“Amor Profundo”) e Tilda Swinton (“O Grande Hotel Budapeste”). Adão é um pessimista convicto, amante da música com certo desprezo pelos seres humanos, vestindo sempre preto (faz lembrar o famoso vampiro Lestat de Anne Rice). Eva é seu oposto ou seu complemento: sempre de branco, parecendo sua outra personagem, a Rainha de Gelo de “As Crônicas de Nárnia”, ela tem um profundo interesse pela humanidade, adora livros e sempre consegue achar beleza nas coisas mais triviais. Casados a centenas de anos, eles desfrutam de sua peculiar relação até que a irmã de Eva, Ava (Mia Wasikowska de “O Duplo”) chega e põe em risco a discrição de suas vidas vampíricas.

E o diretor da soturna e eficaz fotografia de Yorick Le Saux (“A Negociação”) para adornar o mundo dos vampiros e seus costumes, colocando detalhes sobre como se portam nesta época contemporânea e seus cuidados para não serem descobertos ou serem mortos pela luz do sol. Eva encanta na maneira sobrenatural com que lê seus livros ou no cuidado que tem ao agendar passagens aéreas cujas conexões são sempre noturnas. Adão, mais desleixado, sente-se cada vez mais deprimido por um mundo que acredita não ter esperança, e aí recai a grande crítica social do cineasta ilustrada em sua passagem pela falida Detroit nos EUA.

Voltando ao que falávamos no início, a passagem de tempo capturada pelo diretor fala justamente sobre o ostracismo do ser humano sob os olhos de seres aparentemente mais evoluídos, mas que contrasta quando estes precisam justamente retornar às suas origens selvagens pela necessidade.

Por fim, “Amantes Eternos” brilha justamente por não ser sobre vampiros, mas sim sobre os humanos e, mais ainda, sobre o próprio espectador. Cult desde já. E dos bons.

Ficha Técnica

Elenco:
Tilda Swinton
Tom Hiddleston
Anton Yelchin
Mia Wasikowska
John Hurt
Jeffrey Wright
Slimane Dazi
Carter Logan

Direção:
Jim Jarmusch

Produção:
Reinhard Brundig
Jeremy Thomas

Fotografia:
Yorick Le Saux

Trilha Sonora:
Jim Jarmusch
Carter Logan
Shane Stoneback
Jozef van Wissem

 

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