Todo o Dinheiro do Mundo (“All the Money in the World”)

E pensar que a história mais fantástica de “Todo o Dinheiro do Mundo” foi como o diretor Ridley Scott (“Alien: Covenant”) conseguiu substituir inteiramente o ator Kevin Spacey (“Em Ritmo de Fuga”) depois que foi acusado de estupro e assédio – o que enterrou a sua carreira – por Christopher Plummer (“Memórias Secretas”) numa bateria de refilmagens que trouxe praticamente todo o elenco principal em apenas 9 dias totalizando 22 cenas.

Agora, falando da produção, ela foi indicada ao Oscar. Até tem uma história digna de um Oscar. Mas não é a história que é contada. Baseado em fatos reais, o filme mostra o sequestro do neto do homem mais rico do mundo, John Paul Getty (Plummer). O que seria fácil – pagar o resgate – se transformou numa batalha de meses, pois Getty se recusou a dar o dinheiro – uma mísera fração de sua fortuna – para a mãe do jovem, Gail (Michelle Williams de “O Rei do Show”) e simplesmente mandou seu braço direito Fletcher (Mark Wahlberg de “Pai em Dose Dupla”) conduzir as negociações.

Toda a narrativa é amarrada com consistência pelo diretor, mas a história do sequestro, por mais tensa que seja, é ofuscada a cada vez que a personalidade do velhaco Getty se mostra na tela. Plummer fez um trabalho primoroso em caracterizar alguém odiável, mas que dentre suas camadas, exibe uma imensa complexidade, inclusive a fragilidade da idade. E é sempre nos confrontos entre ele e os demais personagens que a obra decola. Michelle Williams é sempre corretíssima (aliás, escolhe muito bem os filmes que faz), enquanto Wahlberg parece fora de seu habitat natural, mas se esforça pra não fazer feio.

O roteiro desenvolve muito bem a narrativa e reveza entre as duas partes da trama (o sequestrado e a mãe com Flechter e Getty) de forma orgânica, se bem que o desfecho é até resolvido com uma facilidade digna de uma licança poética.

Todo Dinheiro do Mundo” tem momentos poderosos e, se tivesse outro enfoque, poderia ter mais chances de premiação. Mesmo assim, Scott faz um belíssimo trabalho e Plummer prova que idade não é limitador de talento.

Curiosidades:

– Quando foi chamado para as refilmagens, Mark Whalberg tinha perdido mais de 10 kg para seu próximo filme e teve que colocar próteses e roupas com enchimentos para não parecer mais magro.
– Quando houve o sequestro, Getty tinha 80 anos. Na versão de Kevin Spacey, ele teve que por uma pesada maquiagem para parecer mais velho. Como Christopher Plummer tinha 88 anos no período das filmagens, ele filmou ao natural.
– O diretor Ridley Scott prometeu que nunca vai liberar a versão com Kevin Spacey depois das acusações de estupro e assédio.
– Para fazer as refilmagens Michelle Williams não cobrou nada e recebeu mil dólares. Mark Whalberg cobrou e recebeu um milhão e meio de dólares.
– As filmagens principais começaram no dia do aniversário de Mark Whalberg, 5 de junho.
– Todo o elenco dos sequestradores é italiano com exceção de Cinquanta (o líder do primeiro grupo que continua com Getty neto) que, apesar de apresentar um personagem italiano, na vida real é o ótimo ator francês, Romain Duris (“A Espuma dos Dias“).
– O filme foi inspirado em fatos reais, mas não foi necessariamente o fato real. Algumas diferenças:
1. O ex-marido e filho de Getty participou muito mais das negociações para libertar seu filhos do que o filme mostra.
2. Os sequestradores foram bem mais violentos na vida real, espancando e torturando regularmente o neto de Getty.
3. Ao ser libertado, ele foi achado por um caminhoneiro. Não houve toda aquela sequência de perseguição no último ato.
4. No filme, Getty morre “simbolicamente” no dia da libertação do neto. Na vida real, ele ainda viveu por mais 10 anos.

Ficha Técnica

Elenco:
Michelle Williams
Christopher Plummer
Mark Wahlberg
Romain Duris
Timothy Hutton
Charlie Plummer
Charlie Shotwell
Andrew Buchan
Marco Leonardi
Giuseppe Bonifati
Nicolas Vaporidis
Andrea Piedimonte Bodini
Guglielmo Favilla
Nicola Di Chio

Direção:
Ridley Scott

Produção:
Chris Clark
Quentin Curtis
Dan Friedkin
Mark Huffam
Ridley Scott
Bradley Thomas
Kevin J. Walsh

Fotografia:
Dariusz Wolski

Trilha Sonora:
Daniel Pemberton

 

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