A Forma da Água (“The Shape of Water”)

O primeiro grande filme de 2018 (tudo bem que lá fora foi lançado em 2017) vem do mestre Guillermo del Toro (“A Colina Escarlate”) e subverte o conto de “A Bela e a Fera”: Sally Hawkins (“As Aventuras de Paddington”) é Elise, uma faxineira muda e solitária de um laboratório secreto que tem sua vida transformada quando uma nova e estranha criatura marinha é levada.

Apesar dos esforços do malvado Strickland (Michael Shannon de “Amor Por Direito”) para fazer a criatura falar ou descobrir quem ela é, somente Elise, às escondidas, consegue uma comunicação tão próxima que um sentimento começa a surgir em seu coração. E quando ela descobre que aquele ser está prestes a ser morto, percebe que tem que tirá-lo de lá o quanto antes.

Só que apesar da bela história, ela é um pano de fundo para uma belíssima homenagem ao cinema das décadas de 30 a 50, além de focar na luta contra o preconceito. Grande parte da produção monta os grandes musicais e romances de Hollywood, costurado pela brilhante trilha de Alexandre Desplat (“Valerian e a Cidade dos Mil Planetas”) que acaba se refletindo na própria trama principal, seja em pequenos pedaços, como por exemplo na cena em que Elise e seu melhor amigo, o vizinho gay de meia idade Giles (Richard Jenkins de “O Ataque”, brilhante) simulam passos de dança sentados no sofá; até próximo ao desfecho uma linda cena de sonho que presta uma homenagem a antológica cena de dança entre Fred Astaire e Ginger Rogers em “Nas Águas da Esquadra” de 1936. Inclusive é nessa cena que Hawkings mostra um talento assombroso que lhe rendeu a indicação ao Oscar de melhor atriz (repare as palavras da canção próximo ao fim da cena).

Situado em 1963 Del Toro faz críticas contundentes à política americana com o pano de fundo da Guerra Fria e da Crise dos Mísseis de Cuba, mas principalmente ao preconceito, onde sua genialidade fez com que a personagem caucasiana (Elise) fosse muda e sua voz é ouvida pela sua melhor amiga, que é negra, Zelda, interpretada pela sempre correta Octavia Spencer de “A Cabana”, e que seu melhor amigo fosse gay.

Em essência, a proposta de “A Forma da Água” se parece muito com a de “A Invenção de Hugo Cabret”, ou seja, onde o fio condutor é bastante relevante, mas divide a importância com um pano de fundo tão relevante quanto. E em ambos os casos é o amor pelo cinema.

A obra de Guillermo del Toro é tão espetacular, quanto bizarra e diferente, que se impregnou no circuito comercial, mas está longe de ser um filme comercial, retratando a beleza do amor da diversidade, a paixão por Hollywood e dando pano pra manga em discussões sociais. Tudo numa só embalagem e fazendo completo sentido, inclusive o final, por mais absurdo que possa parecer. Imperdível.

Curiosidades:

– Há uma cena onde Strickland fala para Zelda que a imagem de Deus poderia ser ela. A atrix Octavia Spencer interpreta justamente Deus em “A Cabana”.
– Doug Jones, intérprete da criatura e parceiro do diretor em todos os seus filmes, ficava 3 horas na sala de maquiagem, mas disse que foi uma das maquiagens mais faciais. Em contrapartida o processo da criação do design da criatura levou 9 meses.
– A última cena que Sally Hawkins filmou foi uma tomada aquática. No dia seguinte ela viajou para Londres para as filmagens de “Paddington 2”. Sua primeira cena lá também foi uma tomada aquática.
– A pré-estreia mundial do foi feita no cinema onde se passam algumas cenas do filme.
– Um dos dias em que se passa o filme é 9 de outubro. É o aniversário do diretor.

Ficha Técnica

Elenco:
Sally Hawkins
Michael Shannon
Richard Jenkins
Octavia Spencer
Michael Stuhlbarg
Doug Jones
David Hewlett
Nick Searcy
Stewart Arnott
Nigel Bennett
Lauren Lee Smith
Martin Roach
Allegra Fulton
John Kapelos
Morgan Kelly

Direção:
Guillermo del Toro

Produção:
J. Miles Dale
Guillermo del Toro

Fotografia:
Dan Laustsen

Trilha Sonora:
Alexandre Desplat

 

1 Comment

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  • Gabriela Santana
    on

    Se não for pra fazer uma crítica dessas, ele nem faz hahah. Uau!!!

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