Assassinato no Expresso do Oriente (“Murder on the Orient Express”)

A escritora Agatha Christie deu vida a um dos detetives mais famosos de todos os tempos: Hercule Poirot. Tanto que esta é a 15ª personificação do herói para um filme, seja no cinema ou na TV. Kenneth Branagh (“Dunkirk”) faz as honras como protagonista e diretor, com uma caracterização impagável do detetive: um homem que claramente sofre de TOC para o equilíbrio de tudo à sua volta – denotado, por exemplo, na agonia de ver gravatas tortas ou na hilária cena do cocô do cavalo – e que justamente por isso tem uma percepção fora do comum para resolver os casos mais complexos com o mínimo de pistas. Seu Poirot é ao mesmo tempo engraçado, determinado e até mesmo melancólico. E é justamente dessa mesma maneira que Branhagh dá o tom da narrativa.

O detetive será desafiado quando, a bordo do Expresso do Oriente, deve resolver um assassinato ocorrido num determinado vagão onde todos os demais personagens parecem ter um motivo para matar o gangster mal caráter Ratchett (o eterno Jack Sparrow Johnny Depp, que aqui, graças a Deus, compõe um personagem sem seus maneirismos do pirata).

O maior desafio da produção é tornar dinâmica uma história que basicamente é uma sequencia de interrogatórios e busca de pistas, sem praticamente nenhuma cena de ação propriamente dita e segurar o espectador no cinema por quase duas horas. Dois elementos foram essenciais para essa proeza: primeira mente um elenco brilhante com grandes nomes – todos amigos ou ex colegas de trabalho de Kenneth Branagh – que, só para citar alguns, temos Willem Dafoe (“Onde Está Segunda?”), Judi Dench (“O Lar das Crianças Peculiares”), Michelle Pfeiffer (“Mãe!”) e até mesmo Penélope Cruz (“Irmão de Espião”). Esse casting dá ao mesmo tempo um aspecto multidimensional aos personagens, como também uma leve caricatura que é importante na hora de entendermos qual o lugar de cada um, uma vez que há um grande revezamento de cenas entre eles, e o espectador não pode se perder.

Finalmente temos a própria direção de Branhagh que se vale de edições inteligentes, flashbacks do passado e cujas cenas se passam em vários lugares dentro e fora do trem, passando o dinamismo e energia necessários para que a obra não se torne cansativa. Não dá pra deixar de fora os talentos da fotografia de (“Decisão de Risco”) que se destaca em todas as tomadas, principalmente naquelas envolvendo Istambul e na rota do trem mudando com maestria entre cores quentes e frias, e a trilha irrepreensível de Patrick Doyle (que já trabalhou com o diretor em “Cinderela”) que é fundamental principalmente no último ato, onde a reviravolta traz uma certa melancolia que vai ao encontro da filosofia do protagonista, o qual cita brilhantemente que o assassinato causa uma ruptura na alma humana.

Assassinato no Expresso do Oriente” vence seus desafios narrativos, traz um elenco de primeira e afiadíssimo, além de reviravoltas inteligentes e que deixa o espectador sair do cinema com mais conteúdo do que entrou.

Curiosidades:
– No filme o personagem de Johnny Depp não sabe uma palavra em francês e sempre se confunde o que deixa Poirot incomodado. Na vida real Depp é fluente em francês e foi casado com a atriz e cantora francesa Vanessa Paradis (sim, aquela que cantava “Joe le taxi” na década de 80).
– No filme o trem sai de Istambul, enquanto no livro, ele sai de Paris.
– No último ato, quando todos os personagens estão sentados à mesa na frente do túnel suas posições iniciais são inspiradas no quadro “A Última Ceia” de DaVinci.
– Na vida real, o Expresso do Oriente viveu um assassinato de verdade, coincidentemente 1 ano depois do livro de Agatha Christie ser lançado.
O ponto onde ocorre o assassinato no filme é onde hoje fica a Croácia.

Ficha Técnica

Elenco:
Kenneth Branagh
Daisy Ridley
Leslie Odom Jr.
Tom Bateman
Penélope Cruz
Josh Gad
Johnny Depp
Derek Jacobi
Michelle Pfeiffer
Judi Dench
Olivia Colman
Willem Dafoe
Lucy Boynton
Sergei Polunin
Marwan Kenzari

Direção:
Kenneth Branagh

Produção:
Kenneth Branagh
Mark Gordon
Judy Hofflund
Matthew Jenkins
Michael Schaefer
Ridley Scott

Fotografia:
Haris Zambarloukos

Trilha Sonora:
Patrick Doyle

 

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